Eu já disse aqui que vir para a Holanda
não foi a minha escolha?
Eu vim, por que era menor de idade, por que minha irmã Kika queria estudar japonês (curso que não se oferecia a nível universitário no Brasil) e ela tinha acabado de passar no vestibular (pra fazer um curso que não queria), mas também vimos por que a universidade lá no Pará vivia de greve (e os diplomas do norte não eram nem aceitos em SP!), além de que, a situação do Brasil estava crítica, era a época do
Collor...
Parece que tudo conspirava à favor da nossa viagem para a Holanda. Exceto o fato de que eu estava passando por uma fase
maravilhosa na minha vida. Eu tinha arranjado o meu primeiro emprego como professora de crianças analfabetas numa escolhinha perto de casa, estava cursando o 3º ano numa escola particular na qual eu tinha ganho uma bolsa de estudo gratuíta e me preparando para o vestibular, que acreditem ou não, era o meu sonho em fazer. Tinha um grupo de estudo, dava aula para meus colegas de turma, fazia as provas no sábado mesmo já estando com a data da viagem marcada e o diretor vinha pessoalmente me perguntar como estava o nível da prova. A minha opinião pessoal era apreciada. Além disso, as paqueras também estavam bem interessantes. A minha vida parecia um mar de rosas e eu cheguei a suplicar para a minha mãe para não vir para a Holanda. Mas, não teve jeito. Enquanto a minha opinião era escutada por amigos, professores e diretores de escola, na minha casa, a minha opinião não contava para muita coisa nos meus 17 anos.
O que aconteceu é óbvio. Nós viemos de mala e cuía na mão: Eu, minha mãe, minha cunhada japonesa (que até então era somente amiga da minha irmã) e minha irmã Kika. Meu irmão já morava aqui 2 anos e foi com ele, que depois de umas semanas na casa de um padre amigo do meu pai e de uma amiga Brasileira do meu irmão, que nós nos instalamos no apto dele.
Imaginem um apto de uma pessoa só onde a sala e cozinha eram juntas e tinha um quarto que não tinha porta que separassem dos outros cômodos, além de um banheiro e uma dispensa de 1m de largura por 2,5m de comprimento onde a minha mãe dormia sobre um colchão. Sim, minha mãe, então com 57 anos, dormia na
dispensa!... Eu e minha irmã Kika dormíamos na sala e minha cunhada, que começou a namorar o meu irmão, dormia na cama com ele. Era um apto de uma pessoa sendo dividido por 5 durante 7 meses. O início foi difícil, bem difícil para todos nós, mas nós ríamos muito também da nossa
‘vida selvagem’.
Nossa chegada foi em maio de 92 e em setembro deste mesmo ano, nós começamos a estudar o Holandês numa turma de estrangeiro. Nove mêses depois, tive uma grande frustração. Por eu não ter terminado o ano letivo no Brasil e não ter feito o vestibular, eu fui rebaixada para o MAVO (equivalente à 7ª série) na Holanda e minha irmã Kika que tinha terminado, podia entrar num
“pré-universitair” e fazer um ano para então entrar de vez na universidade. Eu, mesmo fazendo todas as séries em tempo avançado, levei
5 anos para chegar aonde eu tinha parado no Brasil.
Eu sofrí com aquele sistema Holandês que quer determinar a capacidade e o nível de cada estudante. Sempre fui contra esse sistema por que ninguém pode determinar a capacidade de alguém além da própria pessoa. Minha capacidade foi 'discriminada' por que o Holandês não era (é) minha língua materna. Acabei sim, fazendo tudo o que eles disseram, mas não parei alí e fui mais adiante. Eu podia não saber exatamente o que eu queria ‘fazer quando crescer’, mas eu sabia que eu queria
ir mais além do que eles tinham me classificado...
Eis que para a minha irmã Kika também não foi fácil. Por mais que ela não precisava repetir tudo como eu, o sonho dela de menina desde os 8 anos de idade também foi desafiado pelos Holandeses. A idéia dela era estudar japonês na faculdade (HBO) de letras em Maastricht, mas chegando lá, numa entrevista com o
‘Decaan’ da faculdade, ele disse que eles não aceitariam ela para o curso de japonês por que o Holandês não era a língua materna dela, mesmo que ela já tinha tido 12 anos de japonês no currículo e ter ganho 2x em primeiro lugar um concurso internacional oral da língua Japonesa. Disseram que ela seria aceita no curso que eles ofereciam para o Português (do Brasil), já que essa era a língua materna dela, mas que o japonês ela poderia esquecer...
Minha irmã, obviamente, ficou frustrada. Fez toda essa mudança pra Holanda em nome dos estudos e sonho e fecharam a porta na cara dela!
Sinceramente, eu acho que os Holandeses gostam de desafiar os sonhos e objetivos de uma pessoa. Quando eu fui fazer uma entrevista sobre que estudo eu queria seguir, eu disse “Jornalismo”. E quando a mentora disse que
“não daria certo, por que o Holandês não era a minha língua materna” (é, a razão sempre se repete!), eu fiquei chateada, por que nunca levei um
‘não’ antes disso. No Brasil, seja lá o que fosse que me désse na telha do que eu queria fazer, ninguém me rejeitaria. Ninguém duvidaria ou desafiaria a minha capacidade e competência, mas na Holanda isso é um fator comum e constante no cotidiano de um estrangeiro. Verdade é que eu pensava que
“gostar de escrever + viajar o mundo inteiro” era igual ao jornalismo, o que não é o (bem) o caso! Minha cunhada, a que veio junto, disse que,
‘se jornalismo era o que eu queria, eu poderia fazer uma “reportagem” de como era a vida de uma família de 5 pessoas num apto/kitchnette de uma pessoa de forma que fosse prazeroso para mim e interessante para quem lêsse’. Acho que foi bem alí que eu ví que jornalismo não era então bem o que eu queria. Eu estava tão “deprê” dos “nãos”, de ter sido rebaixada, de todo o meu esforço escolar no Brasil não ter servido pra nada, com saudade dos amigos, que eu não tinha saco, nem cabeça para escrever sobre o assunto! Acho que foi por isso que eu logo tirei o jornalismo da minha cabeça. Não era realmente o que eu queria, por que senão eu teria feito que nem a minha irmã Kika.
Depois da rejeição em Maastricht, ela foi bater na porta de uma das Universidades mais famosas da Holanda, onde boa parte da família Real Holandesa estudou. A de
Leiden. Onde eles também ofereciam o curso de japonês (num nível superior do que o da faculdade de Maastricht).
E lá ela conseguiu a chance dela, sendo que para isso ela primeiro teria que tirar o
“diploma de propadeuse” (o 1º ano da universidade) de um outro curso qualquer para abrir as portas para ela lá. E foi o que ela fez. Depois do
pré-universitair, ela fez o “propadeuse” no curso de Espanhol na Universidade de Nijmegen e depois de conseguir o tal diploma, ela começou a estudar japonês em Leiden. Um curso de pelo menos 6 anos e com estágio de pelo menos 6 meses no Japão. Ela acabou ficando 1 ano lá e realizou com isso, talvez, o maior sonho da vida dela.
Para completar, ela fez novamente o concurso internacional oral de língua japonesa aqui na Holanda e seus concorrentes eram estudantes da faculdade que a rejeitou. Basta dizer que justiça tarda, mas nunca falha, por que ela terminou em 2º lugar acima de todos os concorrentes da tal faculdade, perdendo somente o 1º lugar para um japonês
nato que estudava com ela na mesma universidade. Hoje em dia ela trabalha como professora de HBO em Rotterdam e está escrevendo o manuscrito dela que lhe dará o diploma de PHD em Japonês.
No final das contas, é por isso que eu penso que na Holanda, eles podem desafiar os objetivos de alguém, até mesmo dificultar em altos níveis, mas na questão impedir, eu ainda acredito que
ninguém ímpede ninguém se você não deixar. E não, eu acabei não fazendo jornalismo, mas se vocês notaram bem, o sonho de “escrever + viajar o mundo inteiro”, eu realizei do mesmo jeito! E no final, tudo deu certo! ;)
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PS: * Post especial para a Julliete que um tempinho atrás tinha me pedido uns conselhos sobre o estudo do filho.
Julliete, como você vê, existem outros causos além do meu que eu te contei! ;)
Fui!